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quarta-feira, 21 de julho de 2010

DO GRANDE E DO PEQUENO AMOR


"De regresso ao quotidiano conjugal, eles procuravam a receita da eternidade, sem entenderem o quanto a obsessão pela busca lhes dificultava o gozo da felicidade. A nuvem da guerra pairava sobre as suas cabeças como uma ameaça, esquecendo que a guerra é a mais longa verdade da condição humana. Não queriam ser mais um casal igual aos outros, com a despensa cheia e a televisão acesa. Mas o que torna um casal igual ao outro é a arrogância do desejo da diferença."

Inês Pedrosa, "Do grande e do pequeno Amor"

quarta-feira, 13 de junho de 2007

"Carta ao meu País"


"Tantas vezes tive raiva de não saber sair de ti. As palavras que me deste têm um travo de irremediável lonjura, uma velhice de sol e lágrimas sem silêncio nem coragem onde o coração sossegue. Ensinaste-me a ser ousada em segredo e sonsa nos salões de benzedura. Falas como quem reza, baixinho, e insultas com palavras de pedir perdão, de rastos, de rajada, ta-ra-ra-ta, inchando o peito de eucalipto como se nele rugissem as selvas de África que, na verdade, nunca tiveste. Mas que te importa a verdade? Nasceste homem, talhado para o abstracto da glória, para o heroísmo, vertiginosa ficção. Nasceste homem, cresceste a negar a tua própria mãe, apaixonaste-te pela inteligência cosmopolita da distância, mas casaste sempre com as mulheres de dentro, as que admiram e choram e sabem fingir que querem morrer por causa de ti.

(...)

Amas-me aos soluços, pelas esquinas, no ventoso veludo das noites de Lisboa, e depois deixas-me a ver navios, com uma gargalhada nem sequer cruel, nem sequer derradeira, no guincho dos eléctricos da manhã."

Baú aberto:

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Lisboa, Lisboa, Portugal
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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